Análise: Quem deve exercer o poder somos nós, o povo 

Por mais que seja repetitivo é preciso dizer que estamos em um momento de fragilidade econômica e que, como sempre, os mais prejudicados são os mais pobres. Isso porque, quando falta emprego para quem tem mais de uma renda ou possui um fundo financeiro para emergências é possível driblar os desafios de forma mais amena. Porém, esta é a realidade de uma pequena fração da população brasileira.

A maioria conta 100% com uma única fonte de renda, não possui nenhuma reserva financeira – ao contrário, está na inadimplência – e, além disso, depende de serviços públicos em transporte, educação e saúde. Para estas pessoas, que já estavam em vulnerabilidade financeira antes da pandemia, qualquer movimento negativo da economia faz com que a situação piore ainda mais.

A questão é que justamente os mais vulneráveis foram induzidos a acreditar que o empresariado brasileiro é sempre o vilão da história e que o governo está do lado do povo para resolver todos os seus problemas. Mas, na realidade, é o governo quem tem causado os problemas com os quais todos nós, empregados, desempregados, profissionais liberais, empreendedores ou empresários teremos que lidar.

Um dos exemplos é o que aconteceu no Estado de São Paulo quando o governador João Doria cortou os benefícios fiscais do ICMS para alimentos e medicamentos genéricos. O governo que tem se posicionado como “doador da vida”, cujo gestor-messias não cansa de aparecer com vacina em punho, em plena pandemia, não vê problema algum em elevar os custos de alimentos e medicamentos. A Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) projetou aumento de preços na casa dos 13% por conta da medida.

Enquanto isso, o setor agrícola – “malvadão” – se mobilizou para pressionar o governo – “bonzinho” que só pensa em “salvar vidas” – a voltar atrás em uma medida que prejudica 100% dos brasileiros, mas sem a menor sombra de dúvida, prejudica muito mais os mais pobres. Foi o empresariado do setor que se mobilizou e anunciou protestos e um “tratoraço” em mais de 200 cidades do estado de São Paulo e, dessa forma, fez o governo recuar.

Tratoraço: reação do setor agrícola fez o governo recuar

Tratoraço: reação do setor agrícola fez o governo recuar
Denny Cesare/Código 19/Estadão Conteúdo – 07.01.2021

Para os empresários seria muito mais tranquilo repassar os aumentos e ponto final, até porque, quem causou a elevação de preços não foram eles e quem iria pagar mais caro seríamos nós, o povo. Mas, quando nós, o povo, nos organizamos e deixamos claro que medidas como estas são inaceitáveis em um momento com este, ao governo só resta baixar a cabeça e acatar. Ainda que venha querer justificar – como está fazendo no momento – dando desculpas das mais esfarrapadas.

Segundo o Sebrae, o Brasil tem 6,4 milhões de estabelecimentos comerciais, dos quais 99% são micro e pequenos e geram mais da metade dos empregos de carteira assinada. O empresariado brasileiro é massivamente composto por micro, pequenos e médios, ou seja, pessoas que têm de trabalhar duro todos os dias, sem direito a férias em Miami.

Precisamos entender de uma vez por todas que quem empreende neste país tem de enfrentar uma batalha por dia contra um governo que só atrapalha e, quando aparece, é apenas para cobrar impostos e impor restrições e burocracias ridículas que emperram os processos e prejudicam a todos, incluindo os funcionários. É o empresariado que emprega, que paga impostos altíssimos e que tenta andar carregando no pescoço uma pedra pesada e inútil chamada governo. Um governo que fala uma coisa, mas que, no fundo, faz outra.

Autora

Patricia Lages é autora de 5 best-sellers sobre finanças pessoais e empreendedorismo e do blog Bolsa Blindada. É palestrante internacional e comentarista do JR Dinheiro, no Jornal da Record.